O Pantanal registrou redução de 77,60% na área queimada em 2026, na comparação com a média histórica de 2012 a 2025, segundo dados apresentados no Boletim do Fogo, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). O resultado ocorre em um ano marcado pela presença do El Niño, fenômeno confirmado em junho e que, segundo órgãos federais, pode favorecer temperaturas acima da média e elevar o risco de incêndios em diferentes regiões do país.
A redução da área atingida pelo fogo no bioma é associada a um conjunto de ações de prevenção, manejo e monitoramento. Entre as estratégias estão o Manejo Integrado do Fogo (MIF), as queimas prescritas e controladas, o uso de sistemas de inteligência para identificação de áreas de risco e a ampliação da estrutura de resposta a ocorrências.
Segundo dados apresentados pela Associação Pantaneira de Pecuária Orgânica e Sustentável (ABPO), até o início de setembro foram realizadas 53 ações de queimas prescritas e controladas no Pantanal, abrangendo aproximadamente 19,6 mil hectares. A técnica utiliza o fogo de maneira planejada e sob acompanhamento técnico para reduzir a quantidade de material combustível disponível durante os períodos de maior risco.
Manejo preventivo - O Manejo Integrado do Fogo busca atuar antes da ocorrência de incêndios de grandes proporções. Nas queimas prescritas, áreas previamente definidas são submetidas ao fogo em condições controladas, com critérios técnicos e acompanhamento, para reduzir a vegetação seca que pode favorecer a propagação das chamas.
O Plano de Manejo Integrado do Fogo do Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro, elaborado pelo Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), inclui entre as estratégias de prevenção o monitoramento meteorológico, o acompanhamento do perigo de incêndios, a detecção de focos em tempo real e as queimas prescritas.
A estratégia, portanto, não se resume ao combate depois que o incêndio começa. A prevenção envolve planejamento territorial, monitoramento das condições ambientais e redução antecipada dos materiais que podem alimentar o fogo.
Monitoramento e resposta - Outro componente da estratégia é a integração de informações para orientar a tomada de decisão. Em Mato Grosso do Sul, o Centro Integrado de Coordenação Estadual (CICOE) reúne diferentes órgãos envolvidos na prevenção e no combate aos incêndios florestais.
A estrutura utiliza informações de monitoramento e alertas para apoiar a identificação de áreas de risco e a definição das ações de resposta. O uso de inteligência geoespacial, aliado ao acompanhamento meteorológico, permite direcionar equipes e recursos para os locais que demandam maior atenção.
A experiência de Mato Grosso do Sul também vem sendo associada à consolidação de políticas preventivas. Em 2025, o Estado registrou redução de 92,4% na área queimada do Pantanal em relação ao mesmo período de 2024, segundo dados divulgados pela Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc). Na ocasião, o governo estadual relacionou o resultado à consolidação do Plano Estadual de Manejo Integrado do Fogo.
Participação do produtor rural - Para a Associação Pantaneira de Pecuária Orgânica e Sustentável (ABPO), a participação dos produtores rurais também integra esse conjunto de ações preventivas. A entidade defende que quem vive e trabalha diariamente no Pantanal possui conhecimento sobre as características do território e pode contribuir para a identificação de riscos e para a adoção de medidas de prevenção.
“Quando falamos em prevenção, precisamos olhar para o Pantanal como um território vivo e complexo. O produtor rural está diariamente nesse ambiente, conhece suas particularidades e pode contribuir de forma decisiva para uma cultura permanente de cuidado e prevenção”, afirma Guilherme Oliveira, diretor executivo da ABPO.
A entidade também relaciona a produção sustentável ao cuidado com pastagens, água, solo e biodiversidade. Segundo a ABPO, seu protocolo de produção estabelece critérios relacionados ao cumprimento do Código Florestal, à conservação ambiental e ao manejo das propriedades.
“A sustentabilidade precisa ser entendida de forma ampla. Cuidar das pastagens, da água, da biodiversidade e das condições da propriedade é também compreender os riscos que existem no território. A prevenção precisa fazer parte dessa visão de longo prazo”, afirma Oliveira.
Um cenário que exige vigilância - Apesar da redução registrada em 2026, os dados não eliminam o risco de novos incêndios. O Painel El Niño, elaborado por instituições como CEMADEN, INPE, INMET e ANA, aponta que o fenômeno deve permanecer até pelo menos o início de 2027 e prevê, para determinados períodos e regiões, temperaturas acima da média e condições que podem prolongar a estação seca e aumentar o risco de incêndios.
O resultado registrado pelo Pantanal, portanto, está inserido em um cenário que exige continuidade do monitoramento e das ações preventivas. O Boletim do Fogo do MMA reúne semanalmente informações sobre incêndios e medidas de prevenção, preparação e combate nos biomas brasileiros, incluindo dados produzidos por órgãos federais e ações articuladas com estados e municípios.