O futebol brasileiro movimenta milhões de torcedores, possui clubes conhecidos mundialmente e oferece grande visibilidade às empresas. Mesmo assim, grandes marcas internacionais continuam evitando investimentos em patrocínios às equipes nacionais. Entre os principais motivos estão a má reputação administrativa, as dívidas e a falta de profissionalização de parte dos clubes.
A conclusão faz parte da quinta edição do estudo “Por que, 'ainda', não aqui?”, realizado pelo Ibope, que analisa a presença de multinacionais no futebol da América Latina e os obstáculos para sua entrada no mercado brasileiro.
O levantamento, divulgado nesta terça-feira (13), mostra que empresas como Coca-Cola, Pepsi, Hyundai, Gatorade, KFC, Claro e BBVA, presentes em patrocínios esportivos de outros países latino-americanos, continuam distantes dos clubes brasileiros.
Má gestão e dívidas prejudicam imagem dos clubes
Especialistas em marketing esportivo apontam que a falta de estabilidade administrativa e os problemas financeiros representam riscos para empresas que desejam associar suas marcas a equipes de futebol.
José Colagrossi, responsável pelas duas primeiras edições do estudo, realizadas em 2018 e 2020, destacou que a imagem construída por dirigentes e administrações ao longo dos anos contribuiu para afastar possíveis investidores.
Entre os problemas identificados estão o elevado endividamento, a deficiência na infraestrutura, a falta de profissionais especializados e as dificuldades de governança.
Para Eduardo Corch, consultor de marketing e professor do Insper, grandes empresas procuram organizações que ofereçam segurança institucional, transparência e regras administrativas bem definidas.
Isso significa que a popularidade de um clube, por maior que seja sua torcida, nem sempre é suficiente para conquistar contratos milionários de patrocínio.
Empresas querem mais do que estampar suas marcas nas camisas
Outro obstáculo está relacionado à maneira como os clubes brasileiros apresentam suas propostas comerciais.
As multinacionais buscam resultados que ultrapassem a simples exposição de logotipos nos uniformes. Entre os objetivos estão o fortalecimento internacional das marcas, a aproximação com consumidores e a criação de oportunidades comerciais.
Segundo Rafael Plastina, CEO da Sport Track, o futebol brasileiro enfrenta dificuldades para oferecer esse alcance global, especialmente porque suas competições não possuem a mesma distribuição internacional de transmissão observada em grandes ligas estrangeiras.
Especialistas também defendem que os departamentos de marketing precisam ganhar maior importância nas decisões administrativas dos clubes.
Montadoras chinesas ampliam investimentos no futebol
Apesar das dificuldades, um setor apresentou crescimento expressivo nos últimos dois anos: o automobilístico.
Segundo o levantamento do Ibope, o número de contratos de patrocínio envolvendo montadoras passou de um em 2024 para dez em 2026.
O avanço foi impulsionado principalmente pela chegada de fabricantes chinesas, como BYD, GWM, GAC e Leapmotor, que buscam ampliar sua presença no mercado brasileiro.
Com esse crescimento, o setor automotivo alcançou a quinta posição entre os segmentos com maior presença em patrocínios no futebol nacional.
Profissionalização é apontada como caminho
Embora reconheçam avanços na estrutura comercial de algumas equipes, os especialistas avaliam que o futebol brasileiro ainda precisa melhorar a transparência administrativa, o planejamento financeiro e a qualidade dos projetos oferecidos aos investidores.
A avaliação é de que clubes mais organizados, com gestão profissional e estratégias comerciais de longo prazo, terão melhores condições de despertar o interesse de grandes empresas internacionais.
O estudo reforça que, para competir por patrocinadores globais, não basta ter milhões de torcedores e uma camisa tradicional: é necessário oferecer credibilidade, segurança e retorno comercial às marcas.